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Walter Hunnewell
A fotografia em favor do criacionismo
Walter Hunnewell foi um dos membros voluntários da Expedição Thayer, liderada pelo naturalista suíço Jean Louis Agassiz. A viagem tinha como objetivo a coleta de espécies e dados para comprovar as teorias criacionistas de Agassiz, que se opunham ao evolucionismo de Darwin, amplamente difundido na época. O grupo de cientistas e colaboradores partiu de Nova York em abril de 1865 com destino ao Rio de Janeiro, percorrendo posteriormente Minas Gerais, Pará, Bahia, Tocantins e Amazonas.
A atuação do jovem Hunnewell como assistente da expedição contou também com sua contribuição como fotógrafo amador. Segundo Agassiz,
(…) numa longa estada em Manaus, o Sr. Hunnewell tirou grande número de fotografias características de índios, de negros e de mestiços nascidos quer dessas raças, quer de uma delas e da branca. Todos esses retratos representam os indivíduos escolhidos em três posições normais: de frente, de costas e de perfil. Espero cedo ou tarde poder publicar esses retratos (…). (AGASSIZ, 1975, p. 395 apud KOSSOY, 2002, p.184)
Boris Kossoy cita como o relato da esposa do pesquisador suíço, Elizabeth Cary Agassiz, ajuda a ilustrar um pouco do trabalho feito por Hunnewell, requisitado em decorrência da falta de habilidade de Agassiz para realizar as minuciosas mensurações antropométricas utilizadas por outros cientistas. Em 4 de novembro de 1865 a expedição montou um ateliê fotográfico, no qual:
Agassiz passa ali a metade dos dias, em companhia de Hunnewel, que, tendo consagrado todo o tempo de sua estada no Rio a aprender os processos fotográficos, adquiriu certa habilidade na arte da ‘semelhança garantida’. O grande obstáculo, porém, são os preconceitos populares. Entre os índios e os negros reina a superstição de que um retrato absorve alguma coisa da vitalidade do indivíduo nele representado e que está em grande perigo de morte próxima quem se deixa retratar. Tal idéia está tão profusamente arraigada que não tem sido fácil vencer as resistências. Aos poucos, porém, o desejo deles se verem em imagens vai dominando; o exemplo de alguns mais corajosos anima os tímidos e os modelos vão se tornando mais fáceis de conseguir do que a princípio. (AGASSIZ; AGASSIZ, 1975 apud KOSSOY, 2002, p. 184)
No Bureau d’Antropologie, aparentemente um estúdio e um local de pesquisa criado por Agassiz em Manaus, Hunnewell fotografou entre 50 e 60 habitantes da cidade que, segundo seu idealizador, incorporavam visualmente tantos as diferentes “raças” existentes naquele contexto quanto os “híbridos” resultantes de suas misturas. O Brasil representava para o cientista suíço o lugar ideal para fornecer um exemplo dos perigos de uma “degeneração racial”. Apesar de possuírem as características antropométricas amplamente difundidas na época, as fotografias feitas sob a sua supervisão tinham um objetivo diferente das imagens produzidas naquele mesmo período por outros cientistas. Ao invés de comprovar hipóteses evolucionistas, Agassiz pretendia se opor à teoria de Darwin, afirmando que cada “raça” humana exemplificada pelas suas fotografias constituía uma espécie diferente. As fotografias, segundo a antropóloga Gwyniera Isaac, “… representam um esforço científico no qual Agassiz coletou dados para provar uma teoria, ao invés de observar os dados no intuito de desenvolver uma teoria” (ISAAC, 1997, p.10 – tradução própria).
O clima no estúdio de Hunnewell, segundo relatou o jovem estudante de medicina e futuro filósofo William James, era de constrangimento:
Entrei no estabelecimento fotográfico e fui cautelosamente admitido por Hunnewell com suas mãos negras. Ao entrar na sala encontrei o Professor ocupado em persuadir três moças que ele se referia como índias puras mas que, segundo eu pensei e depois confirmou-se, tinham sangue branco. Estavam muito bem vestidas em musselina branca [tipo de tecido] e jóias, com flores em seus cabelos e um excelente aroma de pripioca [sic]. Aparentemente refinadas, de modo algum promíscuas, consentiram que se tomasse as maiores liberdades com elas e duas, sem maiores problemas, foram induzidas a despir-se e posarem nuas. (JAMES, 1865 apud ISAAC, 1997, p.6, tradução própria)
Estar vestido era, na tradição européia da qual pertencia Agassiz, uma característica civilizatória. Deixá-las nuas retirava delas, além de suas vestes, sua dignidade e humanidade, tornando-as um simples objeto de estudo e escrutínio. O resultado obtido com as imagens acabou frustrando Agassiz, como consta no livro do casal e nas anotações de James. As diversas variações de misturas entre negros, índios e brancos, em diferentes graus de miscigenação, confundiram o idealizador da teoria criacionista, que buscava no Brasil exemplos bem definidos de cada uma dessas “raças puras” e a permanência de seus traços distintivos em casos de hibridação.
As imagens estão atualmente organizadas em dois álbuns fotográficos que foram compilados após o retorno de Agassiz aos Estados Unidos, permanecendo na biblioteca do Museu de Zoologia Comparativa até 1935, quando foram transferidas para o Peabody Museum of Archeology and Ethnology, da Universidade de Harvard, onde permanecem até hoje. Apesar de se supor que Hunnewell é o autor de todas estas fotografias, algumas imagens são atribuídas a Agassiz por este banco de dados.
Na compilação desses álbuns, Agassiz incluiu três estereoscópios com imagens de estátuas clássicas, representando as “maiores” qualidades das características caucasianas. Para comparar as “raças” negra e indígena à branca, o cientista utilizou fotos de diversas espécies de primatas. A coleção de fotografias permaneceu por décadas sem ser divulgada, aparecendo no livro A Journey to Brazil apenas algumas delas como base para xilogravuras. Pode-se atribuir este fato a um conjunto de motivos acadêmicos e políticos que inviabilizaram seu projeto de estudo das raças, além da rigidez moral da Nova Inglaterra na época e da perda de credibilidade de suas teorias.
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REFERÊNCIAS
– AGASSIZ, Luiz & AGASSIZ, Elizabeth Cary. Viagem ao Brasil: 1865 – 1866. São Paulo: Edusp, 1975
– HAAG, Carlos. “As fotos secretas do Professor Agassiz” in Pesquisa Fapesp. São Paulo, n.175, p. 80-85, 2010
– ISAAC, Gwyniera. “Louis Agassiz’s Photographs in Brazil” in EDWARDS, Elizabeth; HAMMOND, Anne; WEAVER, Mike (orgs.) History of Photography. Londres/ Washington D.C.: Taylor & Francis, 1997
– KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002
– MEIRELLES FILHO, João. Grandes expedições à Amazônia brasileira. São Paulo: Metalivros, 2009
– MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de. Estou aqui. Sempre estive. Sempre estarei. Indígenas do Brasil. Suas imagens (1505/1955). São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2012
ACERVO
– Museu Peabody de Arqueologia e Etnologia – Universidade de Harvard (Estados Unidos)