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Rosa Gauditano
Fotodocumentarismo e ação social









Rosa Gauditano é, hoje em dia, uma das vozes mais ativas na documentação das tradições indígenas e na promoção de projetos educacionais voltados a estas comunidades. Nascida em São Paulo, começou a trabalhar como fotojornalista no final no final dos anos 1970. Na década seguinte, atuou como professora de fotografia na PUC-SP e passou pelas redações da Folha de S.Paulo e da revista Veja, dentre outras. Em 1987, fundou a Agência Fotograma, juntamente com Ed Viggiani e Emídio Luisi.
Seu primeiro contato com a questão indígena foi em 1989. A partir daí, passou a ser o grande foco do seu trabalho, sempre buscando desdobrar sua produção fotográfica em projetos educacionais por meio da atuação da sua ONG, a Nossa Tribo.
Seu material mais extenso é sobre os Xavante, no Mato Grosso, e os Guarani Mbya, em São Paulo, tendo passado também pelos Arara, Carajá, Kayapó, Tucano, Yanomami e Pankararu, dentre tantos outros. Hoje em dia dedica-se especialmente aos Guarani Kayowá, no Mato Grosso do Sul.











Rosa também produziu ensaios sobre festas folclóricas e religiosas, tais como o bumba-meu-boi, no Maranhão, e a Festa do Divino, em Goiás. Suas fotos são distribuídas por meio de sua própria agência, a Studio R Produções Fotográficas.
Sua obra é caracterizada pela ênfase no caráter descritivo dos aspectos do cotidiano indígena (rotina doméstica, cultura material, rituais, etc), lançando mão de enquadramentos frontais e cores saturadas. Segundo Ângela Magalhães e Nadja Peregrino,
…sua linguagem fotográfica preconiza uma composição simples, sem os arroubos maneiristas tão comuns aos anos 20, materializados pelos ângulos oblíquos e inusitados (…) ela procura mostrar a pluralidade de tipos físicos, que se articulam em torno das diferenças culturais e ganham relevo como expressão simbólica das inúmeras etnias. (in Gauditano, 2011)
Rosa priorizou nos seus primeiros trabalhos os momentos de celebração da cultura indígena, o que têm de positivo e harmônico. Procurava mostrar como essas culturas vivem e se vêem, sem expor a sua fragilidade, no intuito de preservar sua dignidade e divulgar seus pensamentos.
Num segundo momento, Rosa produziu imagens que evidenciaram o processo de mudança cultural e a degradação social decorrente do contato com a civilização ocidental (Guarani Kaiowá – Genocídio Silencioso). Atualmente, também está documentando os movimentos sociais indígenas e as transformações decorrentes da chegada dos meios de comunicação e da eletricidade nas aldeias.
















ENTREVISTA – 25/03/2013
Quando você começou a trabalhar com a questão indígena?
Isso foi em 1989, quando fui fotografar o Encontro dos Povos da Floresta em Altamira, no Pará. Nessa época já tínhamos a Agência Fotograma, e eu tentei vender essa pauta para algumas revistas nacionais, mas ninguém tinha idéia do que era esse encontro. Na última hora a revista da Transbrasil resolveu bancar a história. Quando cheguei em Altamira, foi um espanto total. Primeiro porque não havia nenhum jornalista brasileiro por lá, apenas alguns correspondentes estrangeiros. E então eu descobri um lado do Brasil que eu nunca tinha visto. Havia muitas etnias indígenas reunidas, e o encontro era justamente contra a construção da usina de Belo Monte, esta que está sendo construída agora.
Eu fiquei por lá uns dez dias. Fotografei bastante e fiz muitos contatos com as lideranças presentes, e foi aí eu soube que este seria o meu trabalho dali pra frente. Eu me dei conta de que o Brasil não conhece o interior do Brasil, ainda que, naquela época, os grandes jornais e revistas ainda tivessem algumas sucursais no interior, ao contrário de hoje.
Como foi a sua história com os Xavante?
O Raízes do Povo Xavante (2003) é o meu livro mais completo, porque fiquei 15 anos documentando os rituais. Em 1992 eu cheguei na aldeia de Pimentel Barbosa, que é a aldeia mãe, de onde surgiram todas as outras aldeias que hoje formam as 9 terras indígenas Xavante do Brasil. Eu fui fazer um trabalho para a revista Caminhos da Terra, sobre 10 jovens alemães que tinham vindo para o Brasil para conhecê-los. Eu os acompanhei por uns 15 dias.
Nesse período eu descobri um novo mundo. O trabalho acabou virando a capa da revista, e ao verem a matéria impressa os Xavante adoraram. A partir daí comecei a ter uma ligação muito forte com eles. Em seguida os mais velhos me mandaram um recado, pedindo para que eu fotografasse os rituais. Eu não tinha nem idéia do que era a cultura Xavante, e não sabia que o ciclo dos rituais deles dura 15 anos!
Ou seja, eu só consegui fechar o livro depois de todo esse período, em 2003, com o ritual Darini. Só aí que eu realmente entendi o sentido do meu trabalho, o porquê deles me pedirem para fazer toda essa documentação. Acho que eu virei um pouco Xavante com toda essa experiência.
Além desse livro, que outros desdobramentos resultaram destes anos de dedicação?
Além do livro fotográfico, eles queriam um livro educativo para ser distribuído nas escolas da região, para que as pessoas soubessem quem são os Xavante. Fizemos também uma grande exposição aqui em São Paulo, na galeria da Caixa Econômica Federal. Os Xavante vieram para abertura, fizeram uma dança, falaram com a imprensa. Foi algo que deu muita visibilidade a eles.
Seus projetos fotográficos estão atrelados a projetos de educação, que envolvem a atuação da sua ONG Nossa Tribo. Como surgiu essa organização?
Numa das últimas vezes que eu estive em Pimentel Barbosa, para fotografar o ritual Darini, morreram duas crianças por falta de atendimento médico. Eu fiquei pensando muito sobre isso, que eu estava fazendo um projeto super caro, enquanto o povo não tinha as mínimas condições de saúde e educação.
Quando eu voltei para SP, pensei em abrir uma ONG, e foi aí que surgiu a Nossa Tribo. É uma organização de várias pessoas da área de comunicação. Temos dois Xavante no conselho consultivo.
O primeiro projeto que fizemos foi um livrinho sobre saúde e nutrição tradicional dos Xavante, focado nas mães mais jovens. Eu percebi que, apesar das mães cuidarem muito bem de suas crianças, elas continuavam morrendo por falta de entendimento entre os órgãos de saúde e os índios. Não há uma comunicação direta, por problemas de linguagem. Paralelamente ao livro, fizemos também um vídeo falado em Xavante, com legendas em português e inglês.
Vimos que um dos grandes problemas dos povos indígenas é a mudança da alimentação deles a partir do contato conosco. Isso trouxe muito açúcar, farinha branca, arroz – coisas que eles não comiam antes.
Que outros projetos a ONG desenvolve?
Além desse projeto sobre nutrição infantil Xavante, fizemos também mais 3 DVDs e 3 catálogos, que formam uma coleção para ser distribuídas para as escolas. Eu percebi que a maior parte do público que vai nas exposições são crianças e professores, e que praticamente não existe informação sobre os índios no meio escolar.
O livro dos Guarani MBya foi um projeto de um ano. Começou com uma demanda deles por um livro escolar bilíngue guarani/português, que até 2006 simplesmente não existia. Depois disso fizemos uma exposição e uma série de workshops.
A idéia era que eles levantassem o que ainda resta da cultura Guarani nas aldeias instaladas na cidade de São Paulo. Então eles fizeram uma lista, e em cima disso começamos a trabalhar com as crianças, produzindo desenhos, fotos e textos. A partir daí fizemos o livro. Há 20 fotos que são minhas, e todo o resto é de material deles.
Fale um pouco dos seus outros livros.
O livro Índios – Primeiros Habitantes [1999] foi o primeiro livro que fiz. É uma compilação das melhores fotos das aldeias que eu já tinha ido: os Yanomami, Guarani M’Bya e os Pankararu em São Paulo, Kayapó em Altamira, os Carajá da Ilha do Bananal, os Arara no Pará, os Tucano no Amazonas, e os Xavante.
O Raízes do Povo Xavante [2003] é um trabalho mais completo, onde eu consegui mostrar minuciosamente todos os rituais, desde os o primeiro, aos dois anos de idade, até o Darini, que é esse que acontece a cada 15 anos. Foi um trabalho feito em conjunto com os eles. Os Xavante orientaram, editaram e fecharam o livro junto comigo. Eu tinha tanto material que eu estava perdida. Então eles ajudaram a revisar e fizeram o texto de abertura. Foi um trabalho de documentação que os Xavante demandaram. Eles queriam deixar documentado o que era a cultura deles.
Por isso que as suas imagens tem em geral um caráter descritivo muito forte, valorizando o aspecto documental da fotografia?
O que importa aqui é mesmo o significado. Às vezes eu pensava em algumas fotos mais legais, mas os índios diziam que não eram boas para mostrar certa coisa. Por isso tive que deixar de lado muitas fotos que eu gostava. Por isso eu acho que o livro realmente registrou aquilo que os Xavante queriam.
Eles precisavam de um documento, porque tudo está mudando muito rápido. As nove terras indígenas Xavante já estão completamente diferentes, em função do contato crescente deles com outras religiões, as cidades, a bebida e a comida.
Que projetos você está fazendo agora?
Eu acabo de concluir um trabalho sobre os Guarani Kaiowá. Eles passam por uma situação muito complicada, que envolve terras demarcadas, terras em litígio e muitos acampamentos na beira da estrada. Estou fotografando eles desde 2010. Saiu uma matéria em um número especial da revista Caros Amigos. O ensaio também foi publicado na BBC de Londres para o mundo inteiro e fizemos uma grande exposição em Brasília, no Congresso Nacional, com um livro editado pela ONG Imagens da Vida.
Atualmente estou documentando as transformações culturais que surgiram do advento dos meios de comunicação como internet e vídeo, e o movimento indígena que está se organizando cada vez mais em todo o Brasil.
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LIVROS PUBLICADOS
– Povos Indígenas no Brasil. São Paulo: Studio R, 2011
– Aldeias Guarani Mbya na Cidade de São Paulo. São Paulo: Studio RG: Associação Guarani Tenonde Porá, 2006
– Raízes do Povo Xavante. São Paulo: R.Gauditano, 2003
– Festas de Fé. São Paulo: Metalivros, 2003
– Índios: os primeiros habitantes. São Paulo: Editora DBA Melhoramentos, 1999
WEBGRAFIA
– Guarani Kaiowá: o conflito da terra – Rosa Gauditano. Entrevista, 5min. Ímã Foto Galeria, 2011 (parte 1 e parte 2)
– Life on the edge for Brazil’s Guarani-Kaiowa. Galeria de imagens. BBC News, 2012 (acesso aqui)
– Native Affairs- Brazil: Silent Genocide. Reportagem, 26min. Maori Television (Nova Zelândia), 2013 (acesso aqui)
– ONG Nossa Tribo (acesso aqui)
– Studio R Imagens (acesso aqui)
ACERVO
Acervo do Autor