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Ricardo Beliel
A Frente de Contato dos Korubo

O carioca Ricardo Beliel (1953) é da geração de fotojornalistas que se firmou na imprensa nacional em meados dos anos 1970. Começou trabalhando no jornal O Globo, e passou também pelas redações da Manchete, Placar, Veja, IstoÉ, Jornal do Brasil, Lance e O Estado de São Paulo. Nos anos 1990, fez parte da agência francesa GLMR & Saga Associés, em Paris, e passou a atuar exclusivamente como fotógrafo autônomo, tendo contribuído regularmente com dezenas de revistas nacionais e estrangeiras.
Foi finalista cinco vezes do Prêmio Abril de Jornalismo, sendo vencedor em três anos consecutivos. Em 1997, foi finalista do Prêmio Esso com um reportagem sobre a expedição da Funai que estabeleceu contato com os índios Korubo.
Atualmente, é professor de fotojornalismo no curso de Jornalismo da Escola Superior de Propaganda e Marketing, no Rio de Janeiro.
ENTREVISTA – 03/10/2013
De onde veio o seu interesse pela fotografia?
Eu comecei a trabalhar como ilustrador e desenhista de histórias em quadrinhos. Sempre tive muito interesse pela antropologia, política, artes e cinema. Cheguei a freqüentar três faculdades ao mesmo tempo, mas sem estar matriculado em nenhuma delas.
Com a ditadura, eu fui morar fora do Brasil. Primeiro na Argentina, no começo dos anos 1970. Naquela época, antes do golpe militar acontecer por lá, o país já vivia uma polarização política e uma tensão social muito grande. Alguns amigos meus chegaram a desaparecer. Aí eu fui parar no Chile, que para o meu azar também estava em um momento de golpe. Depois dessas experiências, eu voltei para o Brasil, já com a certeza de que o fotojornalismo seria o meio que iria conciliar todos os meus interesses. Por meio dele eu poderia viver a história do presente e, ao mesmo tempo, me expressar esteticamente e politicamente.
Naquele momento, o fotojornalismo se tornou um projeto de vida, e não apenas um trabalho remunerado. Era uma forma de me colocar na sociedade, me expressar e criar uma identidade.
Como foi a sua experiência no jornal O Globo?
Foi o meu primeiro trabalho como fotojornalista profissional. Fui contratado em 1976. Antes disso eu fazia fotografia de forma esporádica e um pouco amadora, mas sempre estive ligado ao meio artístico. Fiz fotos de divulgação dos shows do Caetano Veloso e do Gilberto Gil, por exemplo, logo que eles voltaram para o Brasil, após o exílio em Londres.
Eu era uma pessoa da contra-cultura, bastante diferente da maioria dos jornalistas que ainda usavam terno e gravata durante as pautas. Por outro lado, na redação havia um grupo muito experiente com quem eu aprendi muito. Naquela época a grande parte das pessoas nas redações eram mais maduras, experientes, e havia muitos escritores e artistas que trabalhavam como jornalistas para sobreviver. Nos jornais e revistas em que trabalhei convivi com Nelson Rodrigues, Clarice Lispector, João Saldanha, Carlos Heitor Cony… Era um mundo bastante diferente do jornalismo de hoje. Vivíamos todos nesse embate diário contra a censura.
Em que outros meios você trabalhou?
Do O Globo eu fui para a revista Manchete, da Editora Bloch, onde também fazia Fatos e Fotos e Manchete Esportiva, e depois voltei para O Globo. Passei pela Editora Abril, Veja e Placar, e voltei para O Globo pela terceira vez. Passei algumas temporadas em São Paulo, colaborando com a Agência F4. Depois voltei para a Manchete, fui editor de fotografia e fiquei com eles até 1991.
Logo em seguida eu me casei com uma jornalista. Eu e minha mulher fizemos um projeto editorial para O Estado de S.Paulo, que deveria ter sido um caderno exclusivo sobre o meio ambiente – a ECO 92 aconteceu no ano seguinte. Fizemos então muitas reportagens na Amazônia, mas o projeto só durou um ano e nem chegou a estrear por questões internas do jornal.
Com a rescisão do contrato que tínhamos com eles, acabamos então indo para Paris, onde comecei a colaborar com a agência GLMR & Saga Associés. Era uma agência muito especial, porque juntava o que havia de melhor no fotojornalismo francês daquele momento. Depois de um ano, achamos quer seria melhor voltar para a América Latina. Nós já conhecíamos bem a região, e podíamos usar a agência para distribuir nossas reportagens. Depois que a agência acabou e nós nos separamos, em 1996, eu passei a trabalhar sozinho, fotografando e escrevendo.
Como surgiu seu interesse pela questão indígena?
Minha mãe era professora de história e geografia, e por isso ela tinha um conhecimento teórico das questões indígenas. Desde criança os índios sempre fizeram parte do meu imaginário. Quando eu era adolescente, morei na Ilha do Governador, perto de uma casa mantida pela Funai, que abrigava os índios que vinham ao Rio de Janeiro. Às vezes nos encontrávamos e conversávamos.
Qual foi o seu primeiro trabalho sobre este assunto?
Foi para a revista Manchete, em 1989. Eles me mandaram para a Amazônia para fazer uma matéria sobre os Waimiri Atroari, que habitam o norte do Amazonas e o sul de Roraima. A construção da BR 174 nos anos 1970, ligando Manaus a Boa Vista, gerou uma infinidade de conflitos entre estes índios e o Exército, que foi o encarregado pelo governo de realizar as obras. Chegaram a usar táticas de genocídio contra esses índios, bombardeando-os com napalm. Os Waimiri Atroari também foram afetados pela instalação da usina hidrelétrica de Balbina e pela abertura de suas terras para a exploração mineral.
Eu cheguei lá acompanhado por uma repórter e pelo Porfírio Carvalho, um indigenista que, depois de muita insistência, conseguiu promover um programa de reestruturação social dos Waimiri Atroari. Fiz três viagens até eles, documentando este processo.
Que outras etnias você visitou?
No começo dos anos 1990 eu estive no Parque Indígena do Xingu, nos Yanomami e nos Ticuna, enviado pela revista Manchete. Também visitei os Parakanã, que estavam sendo afetados pela Transamazônica e pelas águas da hidrelétrica de Tucuruí.
Naquela época, os índios Arara do rio Iriri estavam em conflito com madeireiros e pecuaristas. Além disso, a Transamazônica dividiu o este povo em duas partes – uma ficou ao sul e outra ao norte da estrada. Acabaram ficando sem contato entre eles mesmos por uns 10 anos por causa das obras, que começaram nos anos 1970. Os dois grupos, que passaram a viver divididos pela estrada, viam os tratores revirando a terra e achavam que eram monstros que estavam comendo a floresta, e que também seriam os responsáveis pelo sumiço do outro grupo.
Você participou de uma frente de contato com os Korubo. Como foi esta experiência?
Isso foi em 1996. Eu e minha mulher na época fazíamos muitos trabalhos na Amazônia para esta agência francesa. Estávamos envolvidos numa reportagem sobre extração ilegal de madeira, acompanhando algumas ações do Ibama e da Polícia Federal. Uma das áreas mais críticas era a fronteira entre o Brasil, Peru e Colômbia, justamente onde estão os Korubo. Nós já sabíamos que a Funai tinha uma frente de atração há algum tempo, comandada pelo Sydney Possuelo. Todas as vezes que íamos para aquela região passávamos também pelo posto da Funai para ver se havia alguma notícia dos Korubo. Em uma das vezes soubemos que eles haviam conseguido localizar uma aldeia durante um sobrevôo pela área.
Mesmo com a localização da aldeia no GPS, levamos 4 meses até o dia do contato. A Frente de Contato já estava na região dos rios Itaquaí e Ituí há mais de um ano, mas só com as coordenadas exatas da aldeia avistada é que foi possível saber que direção deveríamos seguir. A mata dessa região é muito fechada. Nosso grupo era composto por umas 25 pessoas, incluindo índios de outras etnias. Eles foram os nossos mateiros e intérpretes, pois falavam o mesmo tronco lingüístico dos Korubo (Pano).
Qual era o objetivo dessa frente de contato?
A região do Vale do Javari, entre o Brasil e o Peru, é uma das regiões de menor densidade populacional do Brasil. Os Korubo viviam mais para o sul, próximo ao Acre, mas foram migrando aos poucos para o norte, porque nos anos 1980 a Petrobrás começou a fazer pesquisa em busca de petróleo na região usando explosivos. Com o tempo foram aumentando os embates entre eles e as pequenas populações de ribeirinhos com mortes de ambos os lados, e além disso criou-se uma fama de que os Korubo eram canibais. Nas margens do rio Ituí vivem os índios Marubo e Matis, que também falam a língua Pano e que sofreram com seqüestros de crianças e mulheres praticados por índios Korubo. Ou seja, embora os Korubo vivam isolados, estão em constante risco por todos os lados. A área habitada por eles também é alvo de madeireiros e caçadores.
A Frente de Contato era para justamente comprovar a existência dos Korubo nessa área, ajudando assim no processo de demarcação. Não é possível criar uma área de proteção sem que se tenha a certeza da sua ocupação por esses índios. Os Matis e Marubo já tinham suas terras regulamentadas.
Como era o dia-a-dia da expedição?
Enquanto caminhávamos em direção à aldeia, eles nos seguiam de longe pela mata. Deixavam pegadas, sinais e galhos pelo caminho. Faziam barulho de noite e jogavam pedras para nos assustar. Tínhamos que fazer guarda durante a noite para proteger o acampamento, mas ninguém sabia direito a quantidade de índios que havia, ou mesmo se conseguiríamos nos defender se fôssemos atacados.
Embora a região seja muito úmida, com muita chuva, no interior da floresta não há rios muito caudalosos. Por isso tínhamos que nos servir da água dos cipós e dos pequenos córregos, e que vinha cheia de terra e, muitas vezes, com sanguessugas. Caminhávamos das sete da manhã até por volta de quatro da tarde, e então preparávamos um acampamento improvisado com palha de timbira e redes presas às árvores. Insetos, cobras e escorpiões eram comuns em todo lugar. Os mantimentos eram carregados em jamanxins presos às costas, e quando este estoque acabou a nossa única alternativa era caçar.
Como era o seu processo de trabalho?
Usar filmes cromo naquele contexto era muito complicado, porque os de ISO 50 ou 100 não serviam para a pouca luz da floresta fechada, e os de ISO 400 tinham muito grão. Já os negativos nunca davam um resultado muito legal em termos de cor. Então eu optei por um tipo de negativo de sensibilidade variável, que na verdade era um filme que tinha uma latitude bastante ampla, e revelávamos de acordo com as condições de luz da cena. Por outro lado, não tinha uma densidade boa. Não podíamos usar flash e nem lentes muito grandes, para não confundirem com armas. Então acabei trabalhando só com lentes curtas e com luz natural.
Como foi o dia do contato?
Quando chegamos próximo à aldeia, os índios Matis, Kanamari, Kulina, Mayoruna e Marubo que faziam parte da nossa expedição começaram a cantar, anunciando assim a nossa presença. Como os Korubo sumiram, deixando a aldeia vazia, o Sydney Possuelo achou que era melhor voltarmos para a nosso acampamento e aguardar mais um pouco. No dia seguinte, eu e os outros jornalistas presentes (da revista National Geographic e da TV Discovery Channel) o convencemos a deixar que fôssemos até a aldeia, já que ela estava abandonada, para fazermos uma documentação rápida. A idéia era que estivéssemos acompanhados apenas pelos índios da nossa expedição. Assim poderíamos fazer imagens do resto da expedição chegando na aldeia pela primeira vez.
Quando entramos na aldeia, os índios que estavam conosco ficaram muito nervosos, porque perceberam que os Korubo estavam nos cercando. Afinal de contas nós é que estávamos invadindo o território deles. Quando o Sydney e os outros expedicionários chegaram, eles encontraram os Korubo pelo caminho. Houve um momento de muita apreensão, e então eles usaram a tática de começar a rir bem alto para quebrar o gelo. De uma forma mágica e surreal, os próprios índios começaram a dar gargalhadas, se aproximar e a nos tocar. Maceravam folhas com as mãos e esfregavam em nossos corpos e rostos. Para eles, nós é que estávamos sendo amansados, pois estavam cansados de serem caçados covardemente por brancos como nós.
Depois de um contato tenso e da troca de alguns objetos no meio da mata, Sydney levou um jovem índio pela mão, o que fez com que os outros Korubo nos acompanhassem até o nosso acampamento. Os índios da nossa expedição, que também falavam idiomas Pano, tentavam acalmar os Korubo. Depois de um tempo todos se abraçaram em círculo e durante mais de uma hora dançaram juntos e cantaram um canto gutural e uníssono. A partir daí os Korubo vinham nos visitar todos os dias no nosso acampamento. Tínhamos que esconder a comida e outras coisas, porque eles pegavam tudo.
De que forma este material foi publicado?
Esta reportagem foi distribuída para o mundo inteiro por meio daquela agência francesa. Agora eu estou tentando produzir um livro com este material. Como já se passou algum tempo, acho que é um bom momento para retomar esta história, ainda mais porque foi a última frente de contato com índios isolado que se tem notícia, ainda que existam algumas dezenas grupos isolados. Eu estou trabalhando no texto, que deverá ter ao mesmo tempo um caráter de informação antropológica, histórica e jornalística, mais como um relato literário, e não apenas factual.
Como você avalia este trabalho, quase duas décadas depois?
Certamente esta reportagem sobre os Korubo foi uma das mais marcantes da minha carreira, por todo o processo do contato, por todos os riscos e pelo ineditismo. Mas também trabalhei fora do Brasil, com populações indígenas no Chile, no Peru, Bolívia, Colômbia e México. Com os Mapuche no Chile também é um trabalho que me marcou muito, principalmente na época do governo do general Pinochet.
O jornalista certamente não chega a se relacionar com os grupos indígenas de uma forma tão profunda como fazem os antropólogos. Mas, por outro lado, muitas vezes estes estabelecem uma relação muito acadêmica, ou até mesmo um pouco fria, como objeto de estudo. Acredito que o jornalista possa ter uma relação mais humana, pela sua própria formação, por ser menos formal.
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WEBGRAFIA
– Página pessoal: http://www.ricardobeliel.com/
– Entrevista com fotógrafo Ricardo Beliel. 11 min. TV Gama (Universidade Gama Filho), 2010 (disponível aqui)
– Episódio #01 – Ricardo Beliel. 2min. Tocayo TV, 2013 (disponível aqui)
– Sydney Possuelo: uma vida amazônica. Documentário, 38min. Direção: Roberto Stefanelli, 2010. (disponível aqui)
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