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Maureen Bisilliat
Um olhar cênico e plástico sobre o Xingu

Maureen Bisilliat (1931) descobriu a fotografia através da literatura brasileira. Chegou ao Brasil em 1952, após ter estudado pintura em Paris e Nova York.
Tudo começou em 1963, quando um amigo me presenteou um exemplar de Grande Serão Veredas, de João Guimarães Rosa – não sem antes observar que talvez eu não conseguisse entender a linguagem especialíssima desse autor. Não apenas compreendi, mas também mergulhei nas águas daquele mar de palavras, inspirada e instigada a investigar a relação direta de Rosa com os gerais de Minas Gerais. (in Fernandez, 2011:74 – tradução própria).
Desde então, Maureen publicou diversos livros inspirados nas obras de outros escritores. Conheceu o mundo dos sertões de Euclides da Cunha, a poesia de João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade, o universo interior de Adélia Prado e os romances baianos de Jorge Amado. Além disso, apresentou na 18º Bienal Internacional de São Paulo, em 1985, uma extensa série de fotografias e um vídeo produzido no nordeste, refazendo o caminho percorrido por Mário de Andrade em 1927.
Em 1964 começou a trabalhar para a Editora Abril, nas revistas Quatro Rodas e Realidade, onde ficou até 1972. Esta última publicação dava uma especial atenção à questão indígena, em função do esforço do governo militar em levar o “desenvolvimento” para o interior da Amazônia, entrando em constante choque com as populações tradicionais.
Entretanto, foi só em 1973 que Maureen visitou pela primeira vez o Parque Indígena do Xingu, a pedido de Orlando Villas Bôas. Em 1979 publicou seu primeiro livro sobre o assunto, Xingu – Território Tribal (Editora Cultura), lançado em diversas línguas e países. Voltou ao assunto em 1995, quando organizou o livro Guerreiros sem Espada: Experiências Revistas dos Irmãos Villas Bôas (Dana-Albarus/Empresa das Artes) – uma coleção de reportagens publicadas sobre os dois indigenistas, desde a Expedição Roncador-Xingu, iniciada em meados dos anos 1940, até a década de 1970.
Segundo a socióloga Maria Beatriz Coelho,
Os índios de Maureen são apresentados com uma linguagem plástica, em que a cor se destaca como um elemento expressivo, aumentando ainda o vigor das fotos. O que lhe interessa não são os costumes, a relação com a natureza ou com outros povos, mas as formas, as cores, os desenhos, os detalhes e os ornamentos. Ou, melhor, a vida na aldeia é reconstruída, sim (…), porém sob uma perspectiva cênica e absolutamente plástica. Segundo Maureen:
(…) minha tarefa foi, em muitos sentidos, facilitada e até dignificada por aquilo que posso descrever como a consciência cênica do índio. Quantas vezes mantive uma expressão dentro dos limites da câmera, esperando até que um cocar fosse perfeitamente ajustado; colocada uma ou outra pulseira; dado ao corpo o toque final – não por razões de vaidade, e sim pelo justificável orgulho de “ser” como a pessoa “é”. (Coelho, 2012: 118)
Nos anos 1980, além de seus projetos fotográficos, Maureen passou a desenvolver diversos trabalhos em vídeo. Em 1988, Darcy Ribeiro convidou a ela e ao seu marido Jacques Bisilliat para assumirem a direção do Pavilhão da Criatividade do Memorial da América Latina, em São Paulo.
ENTREVISTA – 29/07/2013
Assim como a obra da Claudia Andujar é uma referência quando se trata de Yanomami, o seu nome é hoje associado à iconografia do Xingu. Como começou essa história?
Para mim a diferença é que o trabalho da Claudia com os Yanomami equivale à vida dela. No meu caso foi uma passagem, apesar de não ter sido tão curta. Começou com um pedido do Orlando Villas Bôas, que na época viu o livro que eu tinha acabado de publicar – A João Guimarães Rosa [1969]. Ele me chamou e disse que queria que eu fizesse um trabalho semelhante sobre o Xingu, portanto em preto-e-branco. Mas as coisas mudaram, porque do preto-e-branco logo passei à cor, e em vez de fazer apenas uma viagem estive por lá inúmeras vezes durante os anos 1970.
Porque houve essa migração do preto-e-branco para a cor?
Talvez tenha sido um processo óbvio. Aquela primeira viagem, como foi a pedido do Orlando, as fotografias foram realmente quase todas feitas em PB. Mas a cor é algo que desperta no Xingu. Foi um contágio, digamos assim.
Eu publiquei o livro Xingu – Território Tribal em 1979. Agora estou vivendo uma outra migração, pois no ano passado o Instituto Moreira Salles [que guarda o acervo de originais da autora], me propôs fazer um novo livro sobre o Xingu. Eu tinha, no entanto, uma certa reticência em aceitar essa idéia, porque achava que pudesse ser apenas um remanejo da primeira publicação. No entanto, com a ênfase nas imagens em preto e branco, tornou-se mais “explicativo” ou documental. Posso dizer que está sendo uma redescoberta até para mim!
Como era o seu processo de trabalho em campo?
Eu escolhia sempre os meses de julho, agosto e setembro, por causa da luz cálida e pelas cerimônias que são celebradas nesta época do ano. Se eu fosse uma pessoa mais atenta ao som teria ido também na época da chuva. Nos ambientes mais reclusos é a voz que predomina.
Naquela época usávamos filmes, negativos e cromos que precisavam ser revelados e, por isso, íamos fotografando sem poder ver o resultado. Então eu raramente ficava mais de 5 semanas, porque ia perdendo a referência do que já estava feito, do que tinha dado certo ou não.
No seu livro Xingu, Território Tribal, que foi lançado em 1979 em 5 línguas e com tiragem de 30 mil cópias, você não explora nenhuma situação de conflito ou de doenças, não tem a intenção de denunciar os problemas que viviam muitas das comunidades xinguanas. O foco nessa época era a valorização da figura do índio?
O texto de introdução, escrito por Orlando e Cláudio, aponta para a perda de populações indígenas e para os perigos da época, lembrando, entretanto, a força do índio tradicional. Minhas imagens são um retrato do índio que naquele tempo ainda vivia dentro das suas leis, num território tribal que, conservando suas tradições, tinha o tempo necessário para incorporar os elementos externos sem perder a sua essência. Apesar de ter recebido críticas dizendo ser um trabalho estetizante, nós achávamos que naquele momento específico era importante mostrar a força do índio, e não a sua fragilidade.
O que os Villas Bôas acharam do livro que foi publicado?
Acho que gostaram. Todos os textos foram feitos conjuntamente. Especialmente com Orlando, já que Cláudio ainda morava no Diauarum, no Baixo Xingu.
O que representou para você essa sua experiência no Xingu?
Eu acho que cada pessoa tem a sua paisagem, aquela com a qual se identifica. Para mim nunca foi a savana, sempre foi o deserto, a neve, as altas montanhas. Mas poder ficar nas aldeias é importante, é absolutamente necessário. Você acorda muito cedo, no frio da madrugada, para poder acompanhar o despertar das pessoas e se relaciona com o desenvolver das funções do dia. Você aprende a ter paciência e a agüentar o tédio dos muitos momentos de nada fazer. Eu ainda escuto aquele barulho hipnótico das flautas no calor da tarde, antes de chegar o frio da noite, aquele mormaço… Para mim foi um desafio não se deixar entrar na letargia. Enquanto ao comportamento, no contato diário aprende-se quando estar presente e quando se afastar; a participar sem perturbar. O índio xinguano tem grande perspicácia e um agudo senso de humor; tudo percebe, tudo enxerga, tudo vê.
Como é a sua relação com a questão indígena nos dias de hoje?
É um pouco longínqua. Outro dia estive conversando com o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, que vai escrever um texto de introdução para o novo livro Xingu, destacando a importância de ser um texto abordando os problemas de hoje, sobretudo a poluição das águas. Estando as cabeceiras dos rios fora dos limites do parque representa um grande perigo para as populações.
Como você avalia a sua obra sobre o Xingu, quase 40 anos depois de ser produzida?
Como posso dizer? É difícil e talvez desnecessário avaliar…
Você trabalharia hoje de alguma outra forma?
Tendo a oportunidade de publicar um novo Xingu, já o esteja fazendo talvez!
Você costuma se referir ao seu modo de trabalhar como uma “orquestração”. Poderia explicar melhor?
É uma orquestração de linguagens que se complementam. Quase todos meus trabalhos fotográficos estão associados a obras de escritores – João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Ariano Suassuna, Adélia Prado, e mesmo os Villas Bôas. Agora estamos fazendo um projeto de filme sobre minhas andanças – Equivalências – uma volta no tempo a lugares fotografados no passado, revisitados e documentados 50 anos depois!
Você diz ainda que “suas fotografias não são fine art, não são feitas para serem colocadas nas paredes. Elas fazem parte de um conjunto”.
Sim, porque eu penso sempre em sequências. Tenho dificuldade de vender fotos, porque acho que individualmente elas perdem um pouco o sentido do discurso. Tenho uma certa implicância com a imagem estática.
Historicamente, a temática indígena ao longo da história da fotografia sempre esteve mais ligada à intenção documental. Fotógrafos e antropólogos em geral partem desse ponto, seja para registrar aspectos culturais, seja para denunciar problemas vividos por eles. O seu trabalho, por outro lado, incorpora uma dimensão subjetiva, é muito expressivo esteticamente. Talvez seja, junto com a obra da Claudia, um dos únicos trabalhos mais experimentais já produzidos no Brasil sobre a questão indígena. Como você vê isso?
Só posso dizer que, para mim, na documentação fotográfica sobre o índio existem dois C’s: Curtis e Cláudia. Tanto Edward Curtis (1868-1952), que fotografou grande parte das populações indígenas na América do Norte (algumas delas já extintas ou em extinção), quanto Claudia, deixaram retratos preciosos e únicos de sociedades indígenas, sua vivência e sobrevivência.
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LIVROS PUBLICADOS
– A João Guimarães Rosa. São Paulo: Gráficos Brunner, 1969
– A Visita. São Paulo: Edição especial José Mindlin, 1977
– Xingu – Detalhes de uma Cultura. Álbum com 20 pranchas. São Paulo: Práxis Editora, 1978
– Xingu – Território Tribal. São Paulo: Editora Cultura, 1979
– Sertões – Luz e Trevas. São Paulo: Raízes Artes Gráficas, 1982
– O Cão sem Plumas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984
– Terras do Rio São Francisco. São Paulo / Belo Horizonte: Raízes Artes Gráficas / Alternativa / Bemge, 1985
– O Índio, Ontem, Hoje, Amanhã [coord. Maureen Bisilliat]. São Paulo: Fundação Memorial da América Latina/Edusp, 1991
– Líbano – Impressões e Culinária [com Rômulo Fialdini]. São Paulo: Empresa das Artes/BMD, 1994
– África – Moda, Cultura e Tradição na Costa do Marfim. São Paulo: Senac/Empresa das Artes, 1994
– Chorinho doce. São Paulo: Alternativa/Iochpe-Maxion, 1995
– Guerreiros sem Espada – Experiências revistas dos irmãos Villas Bôas [org. Maureen Bisilliat e Helena Tassara]. São Paulo: Dana-Albarus/Empresa das Artes, 1995
– Bahia Amada Amado. São Paulo: Empresa das Artes/Unisys, 1996
– Pavilhão da Criatividade. São Paulo: Empresa das Artes, 1999
– Instantâneos de um Japão Incomum – Dissertações sobre a Memória. São Paulo, Instituto Takano, 2000
– Aqui Dentro / Carandiru – (org. Maureen Bisilliat) Documentação: Sophia Bisilliat, André Caramante, João Wainer. Memorial da América Latina/Imprensa Oficial, 2003
– Museu Edison Carneiro / Sondagem na Alma do Povo – (org. Maureen Bisilliat) Fotografias Renato Soares. São Paulo: Empresa das Artes, 2005
– Fotografias / Maureen Bisilliat. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, 2009
– Decantando as Águas / O Turista Aprendiz Revisitado imagens filmados por Lúcio Kodato. São Paulo: Cinemateca Brasileira, 2012
– Maureen Bisilliat. São Paulo: Editora Terra Virgem, 2012
REFERÊNCIAS
– COELHO, Maria Beatriz. Imagens da Nação – brasileiros na fotodocumentação de 1940 até o final do século XX. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo; Edusp, 2012
– FERNANDES JÚNIOR, Rubens. Labirinto e identidades: panorama da fotografia no Brasil [1946-1998]. São Paulo: Cosac & Naify, 2003
– FERNÁNDEZ, Horacio. El Fotolibro latinoamericano. México DF: Editorial RM, 2011
– PERSICHETTI, Simonetta. Imagens da fotografia brasileira I. São Paulo: Estação Liberdade, 1997
WEBGRAFIA
– Antônio Abujamra entrevista a fotógrafa Maureen Bisilliat. Provocações: TV Cultura, 2010 (parte 1, parte 2 e parte 3)
– Instituto Moreira Salles (acesso aqui)
– Realidade: O fotojornalismo [autoral] de uma revista. Marcelo E. Leite, 2013 (acesso aqui)
ACERVO DE ORIGINAIS
Instituto Moreira Salles