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Albert Frisch
O índio em seu habitat

Os detalhes da vida do fotógrafo Christoph Albert Frisch e os pormenores de sua viagem à Amazônia sempre foram permeados por dúvidas e questionamentos. Apenas recentemente foram trazidas à tona informações que ajudam a recompor a trajetória deste fotografo alemão, autor das primeiras fotografias conhecidas de índios brasileiros em seu próprio meio natural.
Frisch nasceu em 1840 em Augsburg, na Baviera. Depois de passar por Munique, trabalhou em Paris em um atelier de impressão e edição de imagens. Em seguida partiu para a Argentina, levando consigo estampas de imagens religiosas, com a intenção de vendê-las na capital portenha. Não conseguindo êxito em seu plano inicial, exerceu diversas atividades até conseguir um emprego de fotógrafo. Supostamente Frisch já estava morando no Rio de Janeiro em 1865, quando Georges Leuzinger abriu seu ateliê de fotografia. A Casa Leuzinger diferenciava-se da concorrência por não explorar os retratos de “tipos” brasileiros, como era de costume, mas sim por produzir e comercializar imagens de cunho documental, por iniciativa editorial de seu proprietário.
Aos 27 anos de idade, Frisch esteve na floresta amazônica junto com o engenheiro Joseph Keller e seu filho Franz Keller-Leuzinger – também fotógrafo, pintor e desenhista, além de genro de George Leuzinger. Transitaram pela região dos rios Madeira e Mamoré, onde o governo imperial pretendia construir uma estrada de ferro. Segundo informações de um catálogo publicado pela Casa Leuzinger em 1869, e descoberto recentemente nos arquivos da Biblioteca Nacional, Frisch “percorreu 400 léguas pelo rio Amazonas e seus afluentes durante 5 meses” (ANDRADE, 2012, p.46), num barco acompanhado por dois remadores, desde Tabatinga até Manaus.
Ao retratar integrantes de diversas etnias com que teve contato durante este percurso – como os Ticuna (ou Tikuna ou Tukuna), Miranha, Kaixana, Amauá, Tapuio (ou Tapuya) e Pacé (ou Passé), entre outros – Frisch também procurava apresentar em suas fotografias elementos de sua cultura material como utensílios e habitações, integrando o indígena ao seu meio social e à floresta, em cenas que transpareciam, entretanto, “fisionomias resignadas, tristes”, segundo Boris Kossoy (2002, p.149). O fotógrafo solicitava aos índios que permanecessem imóveis ou apoiados, para que as placas de colódio úmido pudessem ser sensibilizadas por um longo período de exposição, sem que os retratados aparecessem nas imagens como um borrão.
Pedro Karp Vasquez, em sua pesquisa sobre o fotógrafo alemão, ressalta sua habilidade técnica para contornar dois problemas impossíveis de serem solucionados com o equipamento de que dispunha na época: conseguir uma exposição e focos simultaneamente perfeitos tanto do retratado no primeiro plano quanto da paisagem ribeirinha ao fundo. Segundo revela o pesquisador, empregando “um astucioso estratagema para realizar os retratos de índios na região do Alto Solimões” (2000, p. 82), Frisch fotografava seus modelos diante de um fundo neutro, produzindo separadamente algumas vistas para compor o segundo plano. No momento de produzir as cópias fotográficas, combinava os dois negativos, obtendo assim o resultado desejado.
Frisch anexava às suas imagens informações como relações de parentesco e o status social dos líderes indígenas fotografados, demonstrando assim o seu compromisso científico com o público estrangeiro, a quem suas imagens se destinariam. Carlos Eugênio de Moura destaca a inscrição feita a lápis da palavra “anthropofages” no topo de uma das fotos dos Umauá (2012, p.71), reforçando a idéia de uma Amazônia exótica e selvagem, característica da produção fotográfica de Frisch.
A quantidade de fotos e informações relativas à variedade de plantas presentes no catálogo também revela que, apesar da notoriedade de suas imagens, os indígenas não constituíam o foco principal da expedição realizada por Frisch, seguindo uma corrente exploratória inaugurada no início do séc. XIX que visava realizar um levantamento detalhado de nossa flora tropical por pesquisadores estrangeiros. As imagens de indígenas feitas por Frisch, distribuídas na Europa pela Casa Leuzinger, receberam menção honrosa na Exposição Universal de Paris, em 1887.
Albert Frisch deixou o Brasil e voltou para Alemanha em 1869, mesmo ano da publicação do catálogo, para investir em novas tecnologias de impressão fotomecânica. Partiu em seguida para Nova York, em 1871, visando disseminar esse novo processo. Voltou para Berlim alguns anos depois para dedicar-se ao seu próprio negócio de impressões, onde faleceu em 1918.
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REFERÊNCIAS
– ANDRADE, Joaquim Marçal Ferreira de. “As primeiras fotografias da Amazônia”. FACOM – Revista da Faculdade de Comunicação e Marketing da FAAP – nº 25 – 1º semestre. São Paulo, 2012
– KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002
– MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de. Estou aqui. Sempre estive. Sempre estarei. Indígenas do Brasil. Suas imagens (1505/1955). São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2012
– TACCA, Fernando de. “O índio na fotografia brasileira: incursões sobre a imagem e o meio”. História, ciências, saúde – Manguinhos – Vol. 18, nº 1, p.191-223. Rio de Janeiro., 2011 (disponível aqui)
– VASQUEZ, Pedro Karp. “A. Frisch, ladrão de almas na Amazônia Imperial”. Piracema – arte e cultura. Rio de Janeiro, nº1, ano 1, p.90-95, 1993
– __________. Fotógrafos alemães no Brasil do século XIX / Deutsche Fotografen des 19. Jahrhunderts in Brasilien. São Paulo: Metalivros, 2000
– __________. O Brasil na fotografia oitocentista. São Paulo: Metalivros, 2003
WEBGRAFIA
– Cara de índio – conversa com Eduardo Viveiros de Castro. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, 2011. Palestra, 40 min (disponível aqui)
ACERVO
– Biblioteca Nacional (RJ)
– Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro
– Instituto Moreira Salles (RJ)