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Ernesto de Carvalho
Em diálogo de olhares

Nascido em 1981, Ernesto de Carvalho é fotógrafo, documentarista e antropólogo. Graduou-se em antropologia pela Universidade de Brasília, em 2004, e atualmente é aluno de doutorado do Departamento de Antropologia da New York University (NYU), no programa “Cultura e Mídia”.
Desde 2007 desenvolve trabalhos junto ao projeto Vídeo nas Aldeias, coordenando oficinas de vídeo em aldeias indígenas em diversas partes do Brasil, além de fotografar, dirigir e editar filmes. Sua pesquisa atual é centrada no processo de trabalho com vídeo em uma comunidade Guarani Mbya do Rio Grande do Sul, pensando na maneira como as novas práticas de auto-representação têm transformado as relações dessa comunidade com o estado, com seu passado, e em concepções locais de transformação e devir. Seu trabalho de pesquisa fotográfica se concentra, sobretudo, na fotografia como experiência vivida e no processo de encontro intermediado pela câmera.
Como se pode inferir a partir dos textos abaixo, onde o autor expõe as questões que fundamentaram suas imagens, Ernesto incorpora à sua prática fotográfica os paradigmas propostos pela antropologia visual contemporânea, no que se refere ao cruzamento de olhares como diálogo possível. Ao trazer um fundamento conceitual que influi na concepção, no registro e na circulação de suas imagens, sua obra representa um passo além da fotografia etnográfica ou do fotodocumentarismo clássico que, com poucas exceções, vêm dominando a iconografia dos povos indígenas desde a década de 1960.
ESPELHO NOTURNO
A imagem exótica é automática, hegemônica, disponível. Para inverter a construção dessa imagem e gerar uma outra economia visual, é necessário uma re-associação de posições, confianças, engajamentos, corpos, dispositivos, temporalidades. Numa aldeia indígena, a imagem do exótico é um campo de força a ser deslocado. A imagem em geral é um campo de disputa, jogo e memória.
O Vídeo nas Aldeias é hoje um projeto reconhecido no Brasil e no mundo como uma escola de cinema para índios. A proposta é simples: oferecer a comunidades indígenas a possibilidade de construir a sua própria imagem, formando realizadores locais que se apropriam da câmera como ferramenta cultural e política. Essas comunidades, de várias regiões do Brasil, têm sido o palco de uma produção intensa de documentários nos últimos anos, feitos com ênfase narrativa, em forte diálogo com o cinema direto, baseado no cotidiano. Parte fundamental nesse processo são projeções noturnas que ocorrem durante as oficinas de formação. Projetor, pano, caixa de som, gerador, gasolina: o cinema numa aldeia é uma atividade especial, como o é em qualquer lugar. Requer a escuridão da noite – muitas vezes avessa à fotografia – e o deslocamento de equipamentos… mas é sobretudo uma cena íntima, de um encontro novo com a imagem. É a possibilidade de que a representação – de si e dos outros – possa ressurgir diferente, como algo compartilhado, em processo.
Num sentido simbólico, político, as projeções em aldeias indígenas “devolvem” às comunidades a sua própria imagem, e oferece a de outros. Porém, mais do que isso, num sentido concreto, a projeção lança a imagem para fora da caixa, para fora do controle. Subitamente cores, luminosidades, lugares, sons não estão mais contidos nos seus veículos de transporte – disco, computador, tela – mas sim estão dispersos na poeira, no calor, odor, e textura da aldeia, de noite. São mesclados com a espontaneidade do fluir do tempo na comunidade. Essa apropriação material e coletiva da imagem é o momento em que a imagem se torna selvagem, e se re-domestica ao mesmo tempo. Ela se liberta de exotismos, propriedades, associações, projetos, e flutua até o pano. É uma imagem que foi retirada de dentro da sua prisão exotizante, se aproxima e se afasta. Nesse movimento, o universo se desloca.
Na série, por ordem de aparição, são aldeias: Guarani Mbya, Ashaninka, Guarani-Kaiowá e Krahô.
UM OLHAR PROVISÓRIO
Uma oficina de vídeo é um lugar de encontro de olhares. O “cinema indígena” é um processo, uma construção. O cineasta indígena é uma promessa. O objetivo da série é deslocar fantasias acerca do cinema indígena. Mostrar algumas das condições especulares de produção dessa imagem. Oficineiro, fotógrafo, editor, aluno, realizador, branco, indígena são os termos temporários, provisórios, na construção de um novo espaço colaborativo, compartilhado.
Na série, aldeias Apiwtxa (Ashaninka), Tamanduá (Mbya-Guarani), Koenju (Guarani Mbya), e Rio Vermelho (Krahô).
ENTRE-LUGAR KRAÔ
O Brasil de hoje impõe ao universo indígena uma encruzilhada. O crescimento econômico, pseudo-desenvolvimentista, baseado em grandes obras de ampliação da infra-estrutura produtiva, gera entre-lugares, aproxima um futuro de transformações profundas. No norte do Tocantins, os habitantes da aldeia Krahô Rio Vermelho, se deslocam de caçamba para a pequena cidade de Goiatins. Em toda a região, ferrovias, estradas e pontes substituem as balsas, e anunciam mais um novo momento. A eletricidade está quase por chegar.
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REFERÊNCIAS
– Página do Autor: http://ernestodecarvalho.com/
– Vídeo nas Aldeias: http://www.videonasaldeias.org.br/2009/
ACERVO
– Acervo do Autor